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Sinclair e Spectrum

1984

Made in Portugal: a Timex da Caparica

Na Caparica, em Almada, a fábrica da Timex passou dos relógios aos computadores Sinclair e criou modelos próprios, como o TC2048, que muitos portugueses tomaram por um Spectrum.

A Timex, a marca americana de relógios, tinha uma fábrica no concelho de Almada, na Caparica, onde nos anos 70 milhares de mulheres trabalhavam sobretudo a montar relógios [3]. No início dos anos 80, a Sinclair Research fez um acordo com a Timex Corporation para fabricar em massa os seus computadores, e a Timex tinha duas fábricas na Europa: uma na Escócia e outra em Portugal [2].

A mudança foi rápida. Segundo o PÚBLICO, em sete meses a fábrica portuguesa deixou de ser uma filial modesta e passou a ter mil trabalhadores [1]. Os números da produção variam conforme a fonte: o PÚBLICO escreveu em 2006 que ali se chegaram a fazer mais de 10 mil computadores por dia [1], e um texto de 2014 fala em mais de duas mil unidades diárias [2]. Os antigos trabalhadores recordam-na como um dos melhores sítios para trabalhar na altura, com jovens a ganhar mais do que os pais, e a fábrica trabalhou também para a IBM e a Minolta [3].

Muitos dos "Spectrums" portugueses eram, na verdade, Timex feitos na Caparica.

Houve duas linhas de produtos feitos em Portugal: os Timex Sinclair, para os mercados de além-mar, e os Timex Computer, para a Europa. Os modelos inspirados nos protótipos da Sinclair foram quatro, o 1000, o 1500, o 2048 e o 2068, com cerca de uma dezena de periféricos [2]. A ideia era vender com marca própria onde a Sinclair não estava: os EUA, depois a Polónia e o Chile, com negociações para a China e o Brasil que não deram em nada [2]. Houve também exportações para Espanha, Inglaterra e Argentina [3].

A fábrica tinha engenharia própria [3]. Depois de a Timex sair do mercado americano, a equipa portuguesa pegou no TS2068 e, com o INESC, fez uma versão nova do chip SCLD compatível com televisões PAL e NTSC, baixou a alimentação para 9 V e mudou a ficha de expansão para o formato do Spectrum. Assim nasceu o TC2068, em versão prateada e preta; a preta foi exportada para a Polónia e também vendida cá, com interface RS-232 e o cartucho de processamento de texto Timeword [5]. Vieram depois os sistemas de disquetes FDD 3000 [3].

O modelo mais conhecido é o TC2048. Um artigo da Retro Review resume o que se passou em Portugal: nos anos 80 o mercado estava cheio de Spectrums, quase toda a gente com computador tinha um, mas muitos desses "Spectrums" eram na verdade Timex Computer 2048 [4]. Para o comprador comum era um Spectrum melhor: teclado de plástico montado numa placa de circuito, muito mais resistente do que a membrana da Sinclair, porta de joystick Kempston integrada, saída de vídeo composto, interruptor e luz de ligado. As lojas vendiam-no como a alternativa natural ao ZX [4].

Também teve uso profissional: ligado ao FDD 3000, com o seu próprio Z80 e 64 KB a mais, o TC2048 corria CP/M, o sistema de escritório mais usado na época [4]. A divisão de informática da Timex Portugal fechou no início dos anos 90 [2]. A história foi contada em 2025 no documentário "TIMEX, Uma Revolução por Contar", da Galgo Filmes para a RTP 2, narrado por João Diogo Ramos, do museu LOAD ZX Spectrum, em Cantanhede [3].

Fontes

  1. [1]Quando em Portugal se fabricavam mais de 10.000 computadores por dia · PÚBLICO, 2006
  2. [2]Timex Computer, made in Portugal · PÚBLICO (P3), 2014
  3. [3]O impacto da Timex Portugal e a homenagem à engenharia portuguesa em documentário sobre o Spectrum · SAPO TEK, 2025
  4. [4]Introducing the Timex Computer 2048 · Retro Review Magazine / Internet Archive
  5. [5]TC2068 · LOAD ZX Spectrum Museum (Timex Computer World)